domingo, 19 de outubro de 2014

dispersos antes de um exame


Resigno-me sempre coma a mesma frase "É sempre na ultima da hora, não fosse eu português!" Combato estas ideias de derrota, hoje, derradeiro dia de preparação, de emancipação pessoal, de sonho de criança em ser adulto. Se hoje me ponho à prova outros mo farão amanha. Não é nada a que não me tenha habituado durante a minha vida. Um chorrilho de provas é o que isto é. Passo a expressão ao "chorrilho". Espero que os meus auditores não me vejam a vilipendiar o Portugues. Para dizer a verdade faço um disfemismo com as últimas frases. Mas será que a vida não é uma forma violenta de nos testar? Vejamos pois o que nos resta do teste em si: a ansiedade, a antecipação, o rito de passagem, o desespero ou impaciência da sua resolução. Fases pelas quais terei (teremos) que passar. Custa-me o facto de não saber se me imponho mais do que mereço ou se mereço mais do que me imponho. Mas custa-me ainda mais saber que há alguém que por intermédio do de digo e escrevo o irá avaliar. Será mesmo que foi a vida ou eu próprio a colocar-me ao teste? Qualquer dos dois que tenha sido vou saltando esta barreira que tenho pela frente. E deixem-me dizer-vos que da "escola da vida" já me deram famas de mestrado.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Exausto


Drenaram-me do resto que faltava. Deixo para trás casas e espaços vazios. Desapego-me do que ainda me mantinha esta esperança. Pouco mais resta desta carcaça. Olho em desdém para esta segunda pele e afasto-me sem piedade. Um outro nasce hoje sem almejar a nada mais. Resta-me viver, resta-me ocupar o tempo com o melhor que o mundo me pode oferecer. Não volto a olhar para trás, não é hoje que a maldição de Ló me atinge. Limpo e renascido, está na hora de abraçar o destino. Durante a minha exaustão tive tempo para me conhecer. Já não fujo mais ao que sempre soube. Tinhas razão e sempre tentei virar a cara. Às vezes o medo falava mais alto, embriagava-me e aturdia-me. Nós humanos somos assim, inquietos, assustados, à procura de validação. Não será esse o meu trilho. Hoje já não me afasto de mim. Hoje não me afasto por ninguém.



domingo, 7 de abril de 2013

ladainha

Custa-me abrir os olhos e ver os dias a passar como fechá-los e ver os dias a acabar. Custa-me automatizar as minhas palavras e gestos. Ser tudo para uns e nada para outros. Custa-me o arrastar dos dias no meio de todos e de ninguém. Custa-me ser o centro das atenções para mais tarde me eclipsar semana após semana. Custa-me procurar reconhecimento onde nunca o houve. Custa-me escrever antíteses atrás umas das outras e validar todas estas sentenças. Efémeros esforços diários, ladainha constante e irritante.

sábado, 18 de agosto de 2012

pedaço de alma


 Naquele pequeno espaço de tempo enquanto espero por mais um dilúvio, dou comigo no café. Não é o café do costume mas já tinha dado uma espreitadela à meses. E eis que ela cai, entre pequenos intervalos, algo como cinco minutos talvez. Inquietam-se os turistas enquanto os de cá agem como se nada se passasse. Ja me apercebi que é mais do que natural, é até corriqueiro esta forma de encarar as travessuras de S. Pedro. O que já é pedir muito para um homem  vindo de outro país, de outra cultura. De um país onde o tempo passa devagar com o sol pelas costas, de um lugar onde uma cidade resume-se a um punhado de gente.
 Uma cerveja e umas linhas como passatempo, parece-me um bom remédio creio. Pena não o poder fazer a um ritmo diário pois nem todos os dias são merecedores de cerveja.  Do canto do café observo esta torre de babel viva, esta multiplicidade de sons que compõe este pedacinho da cidade. A pouco e pouco vou tornando esta cidade minha e não o inverso, porque de entrega so a tem a qual onde nasci. Mas ja há visões e pessoas familiares. Há espaços comuns como tantas a pontes que atravessam o rio. Todas elas belas, todas elas locais comuns, locais de encontro entre as duas margens. Use-se bem a metáfora.
 Pelos recantos deste bairro, não faltam exemplos da estética napoleónica, icones de grandeza e odisseia clássica desde a avenida da opera até ao museu. Curiosamente por entre todos estas odes ao nosso sentido visual a vida continua e rebate a face do tempo secular. Por entre edificos milenares, os traços de uma civilização incessante e incansavel. São carros à superficie e carruagens sob o solo. São luzes e distracções, são pessoas ou multidões. Mas esta cidade também pára, também dorme. E com ela durmo eu. E após tanto ou tão pouco dito nunca terei dúvidas em afirmar que é fácil ser cidadão do mundo mas quem me tira Lisboa rouba-me um pedaço da alma.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

banal

""já não sei fazer isto" disse-te enquanto acendia as velas da mesa de jantar. Pelo canto do olho pude observar a tua expressão de assentimento forçado. Estavas a acabar de por os pratos na mesa e senti que não podias deixar uma pergunta retórica por fazer. Dão-se aqueles segundos tensos e maquinais, as fracções pesadas da espera em silêncio. Pude ver-te a morder os lábios como se tivesses um segredo por revelar, uma verdade escondida à espreita de sair cá para fora. Soube logo que não irias deixá-la passar. Na realidade, nunca deixas passar nada por ti. "já não sabes fazer o quê?" perguntaste com dolência; como quem larga alguém da mão. Curioso o gesto de colocares o ultimo prato na mesa como se servisses da linguagem do teu corpo como resposta inconsicente. Tive tempo para pensar no que te responder. Mas já estava na ponta da língua. Logo eu o homem das frases feitas. "já não sei fingir que está tudo bem, já não sei abrir as minhas e as tuas portas, já não sei onde ir buscar forças, sei lá...". Mas sabia bem; aliás; sempre soube quando algo esmorece. Mas por dentro só me criticava por nunca saber estar calado."

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

fragrância

"lembrei-me de ti hoje de manhã, senti o mesmo perfume em alguém que passou por mim e não pude deixar de olhar para trás. só mesmo para ver se eras tu. mas não eras. e a cada passo na calçada, choveram imagens atrás de lembranças. o liceu, os desvarios de putos, as tardes na praia, o acampar, os dias e noites nos jardins do bairro, as nossas piadas que ninguém entendia (nem nós às vezes), os sonhos comuns e os medos de infância. eu ainda percorro as mesmas ruas anos depois. tudo diferente e tudo igual. acabo sempre por pensar "já não há putos como nós fomos" e pergunto-me: o que é que nos aconteceu? onde estás tu hoje? talvez escondida na fragrância de um perfume que nunca mais se abriu, perdido na tua mesa de cabeceira."

sábado, 17 de setembro de 2011

já me tinhas dito...

"cuidado com o que pedes, podes ter o azar de acontecer" foi o que a minha mãe me disse há uma data de anos atrás. na altura ri-me e contrapus dizendo de uma forma despreocupada "sabes lá tu! sabes lá alguma coisa..." mas ela sabia. muito mais do que eu. como daquela vez que ela me disse que iria dizer o mesmo aos meus filhos e até os ia castigar da mesma maneira. dessa vez até podia ter acabado o mundo com tanto barafustar e bufar da minha parte. mas ela sabia. e não há outra forma de comprovar senão quando as coisas nos batem directamente no focinho e damos o braço a torçer. mesmo assim pergunto-me porque é que não me avisaste de tantas mais coisas antes da minha vida de adulto? das provações e dos tédios, das responsabilidades e desventuras. de certeza que hoje estaria mais previdente e esclarecido. mas assim não sucedeu. e eu sei, eu sei que é suposto aprender assim, para saber caminhar tive de caír. para saber amar tive que sofrer. e vou saltando de chavão em chavão. mas a verdade é esta: não é necessário ir tão longe para dizer que ela tinha razão. raios partam, eles têm sempre razão."