sábado, 15 de maio de 2010

R.E.M.

"Prefiro dormir. Prefiro não estar cá. Aliás, estar mas não estar, porque me atemoriza a ideia da não existência e a eventualidade de um plano não fisico, ou seja os ultimos segundos de consciência da sua própria entidade. Como solução preferia dormir por muitos anos e entregar-me a esse ócio inconsciente, submundo de Freud e afins. Mas se tivesse de escolher, dormir sem sonhar. Porque sonhar já não me diz nada. E todos esses planos confusos e desconexos não são mais que ditirambes de um louco. Isso já eu tenho sem dormir. Todos os dias. E mesmo considerando um plano de inexistência, quão mau seria sonhar para toda a eternidade sem ter a hipótese de o concretizar? Tantos são os mitos condenados a existências torturadas que assim se reinventava mais um nesse Olimpo onírico. Assente-se a redundância. Por isso prefiro dormir, porque nos permite sempre o acordar, por muito violento que seja."

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Diálogo

"São tantas as vezes em que não creio em mim que ás vezes parece que não creio em nada. Para quem já perdeu a fé na humanidade talvez ainda haja uma hipotese para o individuo. Com isto quero dizer que talvez ainda haja fé pra mim. Pelo menos assim me tento enganar. E é tão fácil enganarmo-nos. Por debaixo da superficie pensamos sempre coisas diferentes daquelas que dizemos. Tem sempre tudo uma intensidade diferente quando vem lá da tripa. E são esses nós e voltas que deixamos ficar lá perdidos dentro de nós. Ai do dia em que os queira desatar. Cabo das tomentas e o diabo a sete. É o purgatório que me está reservado por me enganar constantemente. Por não dizer aquilo que penso e sinto. Por ser um cínico, com a melhor das intenções, para nos poupar a algum amargo de boca. É por causa disso que não dialogamos correctamente. Porque o emissor é omissor. Porque dizemos apenas meias verdades, meias frases. Essa é a razão para todas aquelas vezes em que entro mudo e saio calado."

domingo, 9 de maio de 2010

Insónia

"Fiquei mais uma noite em branco a pensar em ti. Pior. Em ti e em mim. Esse conjugar de verbos na primeira pesssoa do plural que me tira o sono; noite sim, noite não. Nevralgia persistente, maleita de estimação. Eco de um espectro doloroso que me arrepia a espinha e que me envergonha, essa vontade inapelavel de chorar e de gritar e exorcizar esses "demónios" e traições. Levantei-me outra vez da cama, acendi um cigarro e percorri frenéticamente para a frente e para trás o pequeno espaço da minha sala.

"Preciso de acalmar, preciso saír daqui, preciso saír de mim."

Mas isso não existe. O que existe é aquela enorme sensação de erro cometido e a impotência para o poder corrigir. E aceitá-lo ao ponto de turbar-se o raciocinio. A verdade é que ninguém tem verdadeiramente uma segunda oportunidade na vida, mas o que temos é muitas oportunidades semelhantes. Mas há quem não vá prevenido e que ainda sonha com redenções. Esfreguei os olhos à espera de sentir algum cansaço que me permitisse acalmar para adormecer. Nada. O tempo corria para o seu para o destino crepúscular e eu definhava. Fui até ao espelho e pelos olhos da insónia tive de ver que existe algo que me ultrapassa, algo mais além. Para além da palidez do meu sorriso e da agonia do auto-flagelo, existem carros e ruas e prédios e casas e familias e pessoas e vida por aí afora. Toda ela tão diferente de mim; tão desconexa da minha realidade, esses outros problemas e responsabilidades, essas outras noites perdidas que não as minhas, que ás vezes até as sinto fraternas em adversidade. Mas é assim que a vida se propõe a ensinar-nos algo. Pela dor e pelo erro. Agora os erros que cometi, esses já ninguém mos tira."