quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Medo

"Existem locais onde não me atrevo a entrar. Recônditos e escondidos ao primeiro olhar. São becos escuros, paredes meias com os recantos do duvidoso.

Procuro a coragem no fundo dos furiosos ventrículos que alimentam o medo de falhar. Enterrado por entre os outros músculos ele fala mais alto mas não mais forte. Quer por medo quer por coragem.

Persegue-me o inverso em vozes inconfundíveis. Todas elas de onde não sinto nem vejo, mas povoam os ecos e distancias. E tenho medo. Novamente."

terça-feira, 7 de setembro de 2010

infinito

"Estava sentado à mesa, quando me interpelaram novamente. Dizem-me que assim nunca descanso, mas eu contraponho que se no peito existe um músculo que nunca dorme, não estará ele mecanicamente mais cansado que o resto? E para quê descansar se nos sobra uma eternidade? Que fiquem cá os nossos feitos e os nossos filhos para não nos deixarem caír no infinito."

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Tríptico

ACTO I

"Compartimentamo-nos, todos os dias, de modo a que as peças fiquem sempre no mesmo sítio. Sempre prontas a ser usadas e reaproveitadas. Reciclamo-nos quase ininterruptamente. Processo de renovação, da cinza nasce e morre o homem. Deixo de ser eu para ser ainda mais. Desço do sorriso da certeza, reconfiguro as expressões para mais um dia a provar o inverso. Para cada metamorfose existe uma capa, para cada ilusão camaleónica um artífice. para cada eu um espelho. E por detrás dele desmonto-me e desconstruo-me e caio nas fantasias."


ACTO II

"Lavei a cara e olhei pela janela, o dia parecia mais um qualquer, mas já sabia de antemão que aquele era diferente. Era mesmo aquele. Franzi a testa e o sobrolho em descrédito. O espelho não mentia e hoje não me levava de revés. Soube o que tinha a fazer e pus o plano em marcha. Arranjei-me o melhor que pude e saí à rua. Tentei tomar o dia como comum, independente dos sinais que borbulhavam no meu inconsciente. Não o temia, mas também não o esperava, o que sabia é que vivia um dia novo e era aquele, aquele em que após viver trinta anos no mesmo bairro, vi tudo como se fosse pela primeira vez, algum dia havia ser, algum dia havia de renascer dentro do rotineiro, dentro do habitual."


ACTO III


"Compus a armadura e enfrentei o dragão, São Jorge iluminado, radiante lança desferida ao coração da besta. Sorri vitorioso. Mas não havia público. Era um sorriso interior. Um sorriso de realização e de competência. Nada a temer, nada devia a ninguém a não ser a mim, devia-me a gratidão de ter a coragem de ser quem sou."