"São tantas as vezes em que não creio em mim que ás vezes parece que não creio em nada. Para quem já perdeu a fé na humanidade talvez ainda haja uma hipotese para o individuo. Com isto quero dizer que talvez ainda haja fé pra mim. Pelo menos assim me tento enganar. E é tão fácil enganarmo-nos. Por debaixo da superficie pensamos sempre coisas diferentes daquelas que dizemos. Tem sempre tudo uma intensidade diferente quando vem lá da tripa. E são esses nós e voltas que deixamos ficar lá perdidos dentro de nós. Ai do dia em que os queira desatar. Cabo das tomentas e o diabo a sete. É o purgatório que me está reservado por me enganar constantemente. Por não dizer aquilo que penso e sinto. Por ser um cínico, com a melhor das intenções, para nos poupar a algum amargo de boca. É por causa disso que não dialogamos correctamente. Porque o emissor é omissor. Porque dizemos apenas meias verdades, meias frases. Essa é a razão para todas aquelas vezes em que entro mudo e saio calado."
quarta-feira, 12 de maio de 2010
terça-feira, 11 de maio de 2010
Genuíno
“Fizeste-me soltar uma gargalhada. Daquelas sonoras que são capazes de calar toda a gente à mesa. Não me pude conter enquanto ouvia as tuas peripécias e tentava imaginar-te nos cenários que descrevias. Melhor do que isso só imaginar-me lá presente. Só de ouvir a tua voz deixou-me contente, mas mais, muito mais por saber que mudaste. E para melhor. E se me serve de consolo, já consigo rir contigo. Genuínamente.”
domingo, 9 de maio de 2010
Insónia
"Fiquei mais uma noite em branco a pensar em ti. Pior. Em ti e em mim. Esse conjugar de verbos na primeira pesssoa do plural que me tira o sono; noite sim, noite não. Nevralgia persistente, maleita de estimação. Eco de um espectro doloroso que me arrepia a espinha e que me envergonha, essa vontade inapelavel de chorar e de gritar e exorcizar esses "demónios" e traições. Levantei-me outra vez da cama, acendi um cigarro e percorri frenéticamente para a frente e para trás o pequeno espaço da minha sala.
"Preciso de acalmar, preciso saír daqui, preciso saír de mim."
Mas isso não existe. O que existe é aquela enorme sensação de erro cometido e a impotência para o poder corrigir. E aceitá-lo ao ponto de turbar-se o raciocinio. A verdade é que ninguém tem verdadeiramente uma segunda oportunidade na vida, mas o que temos é muitas oportunidades semelhantes. Mas há quem não vá prevenido e que ainda sonha com redenções. Esfreguei os olhos à espera de sentir algum cansaço que me permitisse acalmar para adormecer. Nada. O tempo corria para o seu para o destino crepúscular e eu definhava. Fui até ao espelho e pelos olhos da insónia tive de ver que existe algo que me ultrapassa, algo mais além. Para além da palidez do meu sorriso e da agonia do auto-flagelo, existem carros e ruas e prédios e casas e familias e pessoas e vida por aí afora. Toda ela tão diferente de mim; tão desconexa da minha realidade, esses outros problemas e responsabilidades, essas outras noites perdidas que não as minhas, que ás vezes até as sinto fraternas em adversidade. Mas é assim que a vida se propõe a ensinar-nos algo. Pela dor e pelo erro. Agora os erros que cometi, esses já ninguém mos tira."
"Preciso de acalmar, preciso saír daqui, preciso saír de mim."
Mas isso não existe. O que existe é aquela enorme sensação de erro cometido e a impotência para o poder corrigir. E aceitá-lo ao ponto de turbar-se o raciocinio. A verdade é que ninguém tem verdadeiramente uma segunda oportunidade na vida, mas o que temos é muitas oportunidades semelhantes. Mas há quem não vá prevenido e que ainda sonha com redenções. Esfreguei os olhos à espera de sentir algum cansaço que me permitisse acalmar para adormecer. Nada. O tempo corria para o seu para o destino crepúscular e eu definhava. Fui até ao espelho e pelos olhos da insónia tive de ver que existe algo que me ultrapassa, algo mais além. Para além da palidez do meu sorriso e da agonia do auto-flagelo, existem carros e ruas e prédios e casas e familias e pessoas e vida por aí afora. Toda ela tão diferente de mim; tão desconexa da minha realidade, esses outros problemas e responsabilidades, essas outras noites perdidas que não as minhas, que ás vezes até as sinto fraternas em adversidade. Mas é assim que a vida se propõe a ensinar-nos algo. Pela dor e pelo erro. Agora os erros que cometi, esses já ninguém mos tira."
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Paupérrimo
"Estamos falidos", apregoam as vozes em coro na televisão. Desdobram-se em gravatas e lacinhos, vozes mudas e olhares cabisbaixos. Mas ninguém se convence do que está para vir é como apregoam. Será muito pior. Hoje, perdidos num mar de dìvidas e consumo, viramo-nos novamente para a esmola, para uma vida de remediado ou de remendado. Assim se espalha essa doença chamda miséria. Nem coelhos da cartola, nem ases na manga, nem um milagre de Santa Iria pode reavivar este povo português, que orfão de nascença, já está falido há muitos anos. Especialmente falido de homens e governantes, falido de atitude e valores mas rico de maneirismos e demagogia. Felizmente sou português e já sei conviver bem com as meias verdades e meias rações, com o olhar vago de quem apostou e perdeu um futuro. Mas como eu já não é só uma geração, é todo um povo e uma história que tanto deu de si que agora só lhe resta o abandono. Se hoje em Portugal há alguém que veja o copo meio cheio, eu vejo-o meio vazio.
domingo, 18 de abril de 2010
Fuga
Hendaye. 16:30. Partida de Santa Apolónia. Todos os dias vejo o teu nome no quadro das partidas e sonho em virar para a tua plataforma em vez de entrar no metro. Esse escape à monotonia da minha vida está tão próximo que até lhe sinto o cheiro. O cheiro das árvores e florestas enquanto rasgamos a paisagem numa velocidade de cruzeiro. O cheiro do óleo dos travões do comboio ao chegar a uma estação remota, perdida no meio de um nenhures idílico. O cheiro a liberdade onde todas as caras que vejo são novas. O sonho de uma longínqua aventura começa. O ponto de partida perfeito para me perder e esquecer quem sou.
sábado, 17 de abril de 2010
Subterfúgio
"Levantei a cabeça do copo e limpei o suor da testa. Ao tentar levantar-me parti os copos que estavam na mesa. Alguns corpos olharam-me de soslaio em escárnio ou repreensão. Cambaleei em direcção à saída. Arrastei a minha carcaça até duas ruelas acima. Tinha chegado ao meu limite e sentei-me para não caír. Acendi um cigarro e olhei em redor. Nem vivalma para testemunhar o meu ridículo; ou para minorar esse desejo escondido que tenho de que os outros se compadecem de mim. Entorpecido, tentei afastar as tuas memórias e cauterizar essa ferida. Mas o meu lado masoquista não deixa de revolver e ruminar essas lembranças. Não que tenha prazer na dor, mas ela serve-me de muleta para me sentir vivo. Quis tanto estar errado, mas a realidade acaba sempre por apanhar-nos sem resposta. Num momento de lucidez ganhei forças para me levantar. Não como acto de coragem mas sim de desespero. Afoito ao resto de um mundo turvo pensei: "Quantos dias passaram? Quantos minutos perdi a afastar-te da minha vida?" Sem saber melhor apercebi-me que já tinha a resposta. "Hoje deixo de os contar. Hoje deixo de ser teu", pensei, enquanto me arrastei até casa."
sábado, 10 de abril de 2010
Ódio
Ponho-me à prova todos os dias
Deixo que o meu ódio se apodere de mim
Sinto a dor na pele
Mas o que não me mata apenas me deixa mais forte
O meu triunfo é amargo
Pois alimento o meu descontentamento
E semeio a desconfiança
Dentro de mim
Deixo que as diferenças me separem de ti
Viro as costas ao teu olhar
Cresce a distância
Nasce a repulsa
Deixo que o meu ódio se apodere de mim
Sinto a dor na pele
Mas o que não me mata apenas me deixa mais forte
O meu triunfo é amargo
Pois alimento o meu descontentamento
E semeio a desconfiança
Dentro de mim
Deixo que as diferenças me separem de ti
Viro as costas ao teu olhar
Cresce a distância
Nasce a repulsa
Subscrever:
Mensagens (Atom)