segunda-feira, 19 de julho de 2010

enquanto dormes

"Viras-te para o outro lado e abraço-te como de costume. Coloco o meu braço por debaixo do teu pescoço, beijas-me a mão e dizes-me timidamente "até amanhã" com voz de sono. Respiras suavemente ao som das minhas carícias no teu corpo. Já é hábito ver-te adormecer assim. Num abraço de gigante, prometo-te que nada te pode magoar, prometo-te estar ali, ao teu lado quando acordares. Declamo-te os meus delirios até sentir o teu peito pesado e o desfazar do teu aperto. Contemplo-te adormecida, acaricio os teus cabelos e sinto o tremor enlevado do carinho. Já dormes. Fico sempre mais algum tempo acordado, a imaginar o que te direi amanhã, a recear as palavras que ficam nos interlúdios, sempre a medo guardadas para um dia propicio, um eventual qualquer. Digo-te baixinho "gosto de ti" receoso que acordes e me ouças. Receoso de quebrar esta frágil aliança, construída de beijos e sorrisos. Aperto-te contra mim suavemente e convenço-me de que nunca me quero separar deste segundo. Enquanto dormes tento apaziguar esta fome voraz de te dizer o que já sabes e convenço-me da tua resposta. Fecho os olhos em busca do sono para afastar esse medo dos vindouros. Não obstante o meu sorriso enquanto dormes."

terça-feira, 13 de julho de 2010

Pai

"Ainda ontem sonhei contigo. E sei que vou continuar a sonhar até que me digam que já não estás cá. Faço-o de forma recorrente sem saber. Sempre no mesmo plano; o familiar; mas em situações diferentes. Já encarnaste tantas personagens no meu imaginário, e curiosamente todas tem uma posição de paternalismo, não fosse esse o teu papel. Vejo-te sempre como se tivesse dez anos, imagem que perdura na inocente memória infantil, preciosa lembrança que o meu subconsciente quer manter intacta, inalterada. Já la vão tantos anos sem ti e parece que nunca me acostumei à tua falta. A falta dos dias em que parecíamos uma família, dos dias em que jogávamos à bola, das vezes que te ia visitar ao trabalho, das cumplicidades que compõem os laços entre pai e filho e que só hoje aprendi a acarinhar. E nos sonhos choro sempre lágrimas de redenção, as lágrimas da saudade, as lágrimas que tu me ensinaste a soltar sem medos. Sonho sempre com os abraços e com os sorrisos. Onde parece que está tudo bem, e te venho pedir os conselhos de amigo, de quem nada mais quer que o bem de quem é sangue do nosso sangue. Acho que gostarias de saber que já me passaste o testemunho e que hoje já és ancião. Hoje também sou pai como tu e pergunto-me se a minha ausência também te faz sonhar comigo.

sábado, 10 de julho de 2010

num outro espaço...

"Custou-me passar a soleira da porta e entrar naquele mundo que não era o meu. Uma casa recheada de memórias, odores e sentimentos, ecossistema inóspito e hostil. Estava petrificado pelo medo de incorporar esse corpo estranho que emanava em tudo o que me rodeava. Não quis transparecer o meu mal estar e sorri. Decidi-me a entrar. Sabia bem para onde ia mas isso não impediu que estivesse mais preparado do que pensava. Dirigi-me para um canto enquanto arrumavas os restos de um passado espalhado pelo chão. Eram roupas e cartas, sapatos e fotos, perfumes e palavras nunca ditas. Afastei-me um pouco e deixei-te sózinha com os teus pensamentos. Quis ser apenas um espectador. Observei-te enquanto compunhas o lar. E com ele como me compunhas a mim num espaço desconhecido e invulgar. Se te pareci distante, é porque tu não sabes que ainda hoje sou um estranho em tua casa."

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Alugo-me

"Quem quer ideias e ideais? Vendo ao desbarato, ao preço da uva mijona, o verdadeiro negócio da china. Vendo a minha moral e a minha ética por algo que me seja mais prático no dia-a-dia. Como por exemplo uma bicicleta ou uma mala de viagem. Ninguém está interessado? Uma ocasião destas é de aproveitar e ainda sou capaz de incluír também os meus valores religiosos. Desde ateismo até ao xintoísmo tudo vale. Desde que me paguem. Para aqueles que não se satisfazem apenas com a psique, o meu ego em nada fica incomodado se eu proponho a venda o meu corpo. Alguém interessado? Desde a venda de órgãos, cobaia para novos fármacos ou simplesmente à prostituição. Porque não? Se todos nos prostituímos todos os dias em função do materialismo porque é que eu devia de ser diferente. Ao menos eu admito. O dinheiro dá-me jeito."

terça-feira, 6 de julho de 2010

Legado

"Era domingo. O dia em que convergem todas as necessidades afectivas de quem é pai, irmão, primo,tio, filho. O fim da semana culmina a olhar para o umbigo e a cuidar desse cordão umbilical que para além do sangue que partilha, alimenta e nutre o próximo. O nosso próximo. Ao descer a calçada vislumbrei indiscretamente, mesas repletas de crianças e pessoas a comungar. E sorrisos e choros. "À hora do jantar em vez de andar por aqui sozinho, devia de estar ali... numa casa qualquer, com uma família qualquer, mas minha."

Sofro de um estado anímico-anémico, ou seja estou à mingua. Falta-me a base que compõe o mundo, onde repousam e se apaziguam as maleitas universais. Esse conforto que existe no dar e receber. Só porque sim. Só porque se ama. Mas saio de uma disfuncional para uma que não existe. E resta-me o passado de uma e o futuro de outra.

"Há sempre um amanhã. O legado é que conta." pensei.

E eu do lado de fora; na calçada; á espera que uma dessas janelas ou uma dessas portas se abrisse e me convidassem a entrar. Só porque sim."

sábado, 3 de julho de 2010

Adjectivação

"Não posso falhar porque não há nada para falhar, pois nada falha quando nada se move. " - ouviste-me dizer. Mas há algo a perder. Antevejo o inapelável sentimento de roubo, de rapto da vontade. Drenada a iniciativa de superar-me constantemente, tropeço no sossego e na conveniência. "Conivência" disseste-me, afastando a minha mão da tua cara. Quiseste chamar-me preguiçoso, inepto, estagnado. E o pior é saber que tens razão. Mas nunca to direi nem admitirei. Se faltou algum adjectivo foi "Orgulhoso". Desse já eu estava a espera há muito tempo. O que me vale é que os meus defeitos são constantes e sei bem com o que posso contar. "E tu? Sabes com o que é que podes contar?" - perguntei-te. Mas não esperei resposta.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Acto II

"Às vezes ainda passo pela tua sepultura e contemplo a tua lápide. Esse padrão que assinala a tua existência; gravado em pedra, chorado em sal. Mas hoje não venho para chorar. Limpo a poeira no teu nome, e ajoelho-me perante a tua efeméride. A elegia já te era merecida e é irónico pensar que de nada servem as palavras se não as dissermos, se não verbalizarmos o que nos emana de cá de dentro, mas já estou sem forças para as articular. Especialmente para uma plateia de sombras. Prostrado, sigo a liturgia; o exumar de tantos momentos, de tantos destroços de tempo. O reavivar dessa pequena centelha que existiu para além de ti. Para além de nós. Mas desta vez nada renasce da pira fúnebre que compôs o cortejo.

Levanto-me e sacudo a terra, largo um ultimo olhar á relutância. Volto-me para alameda cipreste e deixo o sacrossanto para os fieis, as quimeras para quem sonha, e o pecado para quem o expia. Parece-me que ainda espero a negação desta realidade, uma forma de poder sair do compasso e quebrar a engrenagem que criou este segundo. Serve-me a ilusão por agora, porque não é mais do que isso. Agora apercebo-me ter vindo ao sitio certo, porque hoje vim dizer o adeus que já devia de ter dito hà muito tempo."