sábado, 17 de setembro de 2011

já me tinhas dito...

"cuidado com o que pedes, podes ter o azar de acontecer" foi o que a minha mãe me disse há uma data de anos atrás. na altura ri-me e contrapus dizendo de uma forma despreocupada "sabes lá tu! sabes lá alguma coisa..." mas ela sabia. muito mais do que eu. como daquela vez que ela me disse que iria dizer o mesmo aos meus filhos e até os ia castigar da mesma maneira. dessa vez até podia ter acabado o mundo com tanto barafustar e bufar da minha parte. mas ela sabia. e não há outra forma de comprovar senão quando as coisas nos batem directamente no focinho e damos o braço a torçer. mesmo assim pergunto-me porque é que não me avisaste de tantas mais coisas antes da minha vida de adulto? das provações e dos tédios, das responsabilidades e desventuras. de certeza que hoje estaria mais previdente e esclarecido. mas assim não sucedeu. e eu sei, eu sei que é suposto aprender assim, para saber caminhar tive de caír. para saber amar tive que sofrer. e vou saltando de chavão em chavão. mas a verdade é esta: não é necessário ir tão longe para dizer que ela tinha razão. raios partam, eles têm sempre razão."

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

daemon

"transpomo-nos podemos dizê-lo? retiramos a nossa pele em escamas nas noites que passámos em serpente. reptilicos abrimos persistentemente os braços que não temos. talvez num milhão de anos. assim sobram as leis dos mais fortes. assim nascemos de evolução. e custa-nos o olhar veloz de desconfiança. se falamos pela sua cor é o mesmo que cuspir nos nossos corpos. e vivem-se. e respiram-se. não como velados, se é que o queremos como santos. esquecemos vidas passadas em legiões e nem nos podemos valer das nossas vidas. nenhuma delas."


domingo, 28 de agosto de 2011

Luz

"O sol teima em descobrir uma forma de nascer outra vez, sinto a frescura do dia entrar lentamente pela janela na divisão onde estou e começo a sentir-me menos tenso, menos agastado. Curiosamente os ciclos que tanto apregoo tem uma forma única de se revelar. O ecrã enche-se de letras e palavras enquanto tento desocupar alguns atalhos e recantos da minha mente. Assim como o sol entra em minha casa sinto que algo deve ser colocado à luz do dia, à luz da razão, à luz da paz de espírito. Revolvem-se notas antigas, centelhas de imagens e momentos, sons familiares que ainda reverberam na pedra. Podia falar-se da memória de elefante mas as cicatrizes da paixão falam mais alto que fotos perdidas em baús. Revisto os mesmos espaços sozinho e encontro as mesmas canções que escutava. Sente-se o medo impregnado nos mausoléus onde fechei esses pedaços de mim. Afasto os demónios e fantasmas que nunca existiram verdadeiramente, espectros e reflexos criados pela defesa do sacro. Essa câmara onde não me atrevo a entrar. Percebo de onde vem esta calma, é o som das vozes que me acompanham. Talvez seja hora de quebrar esta barreira que ainda não entendo. Ainda não sei se é aí onde estou, mas vejo que há luz. Finalmente."

sábado, 6 de agosto de 2011

monocórdico

"mais, mais e mais. limpo o suor da testa e arregaço as mangas. já sei que o dia vai ser puxado e sinto a vontade de cuspir nas mãos para pegar na enxada. não é esse o meu destino embora já o tenha visto na primeira pessoa. "já não sou assim tão novo para pensar em batatas e trabalhos forçados" pensei no meio da azáfama. é tão difícil acordar. o correio acabado de chegar, a barba por fazer e a loiça para lavar. Contas e contas, meios minutos nas vozes da manhã em surdina na televisão, a água quente que me chama em tons de vapor. inteiro-me das realidades comuns enevoadas. "põe os óculos bom homem!" e sinto que vejo melhor sem ver. "a limpidez da vista não coaduna com a limpidez de espírito". revisito as meias e as calças, acerto o olhar com o gel no cabelo. fecho e deixo o cubículo. "deve ser a milionésima vez que desço as minhas escadas, espera, já ontem me disse o mesmo, espera..." e sinto-me indeciso em descer e viver. e já vou tão rápido rua acima que nem vejo quem me acompanha, buzinam e ultrapassam. fujo aos engarrafamentos e desço a minha colina por ruas velhas. segue-se a marcha forçada e não deixo de pensar "se deus me quer, o homem sonha, a obra nasce? mas que deus é este que me deixa sempre a querer a meio dos sonhos. não admira que sejam nados-mortos. e não o censuro, censuro-me a mim por viver as mesmas obras, dia após dia."

sábado, 16 de julho de 2011

semânticas

"Coibi-mo-nos de perguntar as coisas que realmente queremos com medo que de ouvir as respostas que sabemos. Mais especificamente as que nos dizem respeito. E acho que as palavras passam a ser realidade quando as proferimos, ganham força e sentido, criam asas e ultrapassam as ideias. Talvez seja esse o nosso mal. Dar tanta força ao que não queremos ouvir em palavras faladas. Ficam os resquícios semânticos de frases recicladas, pedacinhos perdidos nas entrelinhas.Um duplo significado escondido, um sinónimo por esclarecer. Peca-se na sua transmissão como quem conta um conto aumenta um ponto, amplifica-se o sentimento e desfaz-se o silêncio dos olhares. Mesmo que não se queira, repete-se e repete-se e repetem-se, até nos conseguirmos despir dos sons que compõem as quebras do vocábulo e dizer o que queremos sem medos. Não obstante o que se possa ferir pela voz."

quarta-feira, 6 de julho de 2011

passivo-agressivo

"dois pólos de racional, uma pitada de sarcasmo, uma voz furiosa. um contencioso escondido, um trejeito animal,uma dúvida aparente. oscilam os pêndulos da voz, rege-se um salomónico duvidar da balança. voz pregada em vidas por amar, pela raiva das cores que nunca viu. narcoléptico sonho real, esculpido a sussurro e trovão. agitam-se violentamente os pratos de uma balança viciada. fecha-se os olhos à compaixão e desferem-se golpes precisos e cirúrgicos. alimenta-se a ironia e guarda-se tudo numa inviolável caixa de vidro. contemplam-se os ventos no olho do furacão e amaldiçoa-se a sua devastação. negam-se bálsamos e consolos para que se possa aprender a suportar e transformar a dor. compõe-se peças de um yin-yang pois tão certo é fazer um de duas metades."

segunda-feira, 30 de maio de 2011

enxame

"Posso ser quem não esperam que seja? Posso viver como não esperam que viva? Sigo defraudando os vossos desígnios. Nem pelo destino como me advogam, nem por ninguém que não o mereça. Quem o merece afinal, se o imposto me soa como redutor e mesquinho. Se o aprisionar do que sou, não me parece nada altruísta. Pois bem, fuja-se ao normativo, fuja-se à regra porque se as palavras valem o que valem num mundo cheio de verbos, quem adjectiva é rei. Mas a colmeia agita-se, o frenético enxame irado irrompe em busca do próximo linchamento. Se bem que prenuncie a minha sorte, farei frente ao vosso escárnio e arrecado a coragem do ultimo dos moicanos. Fiel e incorruptivel. A mim digo-o eu. Se o que perco é o mundo, no final ganho a minha integridade. Mas sei bem que quando se der a cisão dirão apenas uns para os outros: E é apenas mais um. Na miríade, era um que ainda não tinha nome."