sábado, 12 de fevereiro de 2011

etílico

"Cheguei a casa tão tarde que pensei que não acordaria para ir trabalhar. Mas acordei. A escassas horas do meu reencontro com quem já não via há tempos, a manhã desdobrava-se mais calma do que eu pensei. Mas não na minha cabeça. Lá dentro, sinto que há uma casquinha de noz a fazer aquele esforço sobre humano de se manter à tona de agua. Maresia é a definição do estado etílico de hoje. Tonto, indisposto e titubeante. Felizmente há quem disfarce bem. Tudo isso enriquece apenas a narrativa rocambolesca que compõe este hara-kiri matinal. "Ainda consigo fazer piadas." pensei para mim com um largo sorriso que ninguém percebeu. "Mas valeu bem o sacrifício". Especialmente quando passamos o nosso tempo com quem nos entende e viu crescer."

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

omissão

""Deixa-te de tretas" troçaste. E sem saber como, ou se havia de te responder, deixei cair um sorriso nervoso. Um daqueles que todos sabemos que é forçado, um fingido que não faz jus aos meus sorrisos. Logo tu, que me conheces, sabes bem o que são sorrisos abertos acompanhados de gargalhadas sonoras. Eu, o homem das odes ao humor e ao ridículo. Eu que te deixei habituada ao contraponto da minha voz, tento esconder o desconforto da minha mascara. Olho pela janela do café e disfarço o tom gravoso, para não ter de olhar para os teus olhos. "É o problema de me dar com pessoas inteligentes, sabem ler as entrelinhas dos silêncios." disse calmamente. Levantaste a sobrancelha com ar de quem espera uma explicação, uma pergunta retórica. Levantei-me da mesa. "Deixa que quem paga o café sou eu. Vou fumar lá fora. Já chega de psicanálise." Não ousaste dizer uma palavra. Ao acender o cigarro surgiu-me a conclusão imediata deste diálogo. É que para que não me afastasse do meu canto, onde a descoberto irias ver muito mais do eu sou, soube logo que era o momento de te omitir muita coisa."

sábado, 5 de fevereiro de 2011

diletante

"Custa-me procurar os eufemismos, buscar um espacinho ilusório no qual prevejo a fuga. Custa-me olhar para o infinito e procurar o que ainda não existe. Porque só o é se o for imaginado. Essa não me falta, peco é na vontade. Custa-me não encontrar um repouso no meu leito. Custa-me não ter um par de braços que me abracem. Custa-me não ter a quem me entregue. Custa-me não poder voltar aonde estive, nem sorrir para quem vi. Custa-me contar os segundos para o próximo incompleto. Custa-me a diletância que não é mais que uma metáfora inacabada. Tautologia que compõe um vivido de metades. Essa metade de nada como tenho a mania de dizer. E de não pensar em mais nenhum desses verbos que finalizam cada frase que deixo de dizer. "

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

inventário

"Uma cabeça, dois olhos, duas orelhas, um nariz, uma boca. Confere. Dois braços, duas pernas, dois pés e duas mãos. Confere. Em cada pé e cada mão cinco dedos. Confere. Dois pulmões, um figado, um estômago, um intestino de cada qualidade. Confere. Um pâncreas, dois rins, uma bexiga. Confere. Um coração. Não confere. Não confere?! Mesmo assim ainda me sinto anatomicamente correcto. Se calhar já não preciso disso. Creio eu. Agora sim, tudo conferido. Só me falta arrumar as ideias. Mas quem é que faz o inventário disso? E não são só as ideias completas, mas também aqueles raciocínios que ficam a meio ou aqueles fragmentos e pedacinhos que ainda não compõem uma ideia mas que espalham a semente. Tarefa hercúlea de arrumar e catalogar uma casa desarrumada. Passo a expressão à casa pois serve-me melhor o armazém. Para ser sincero nem me estava nada a apetecer fazer arrumações. Da ultima vez que o fiz foi uma poeirada que quase me perdi em tamanho nevoeiro. Fora ter de arredar caixas e caixotes, telas e papelotes, coisas perdidas de criança e projectos de homem crescido. O que tem de ser tem muita força, já me convenci. Vamos lá a essas catacumbas. Epá, espera aí. Um cerebro. Confere."

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

insustentável

"Pousei os talheres e tomei atenção ao televisor. Estava justamente a acabar a refeição quando me apercebi das imagens que me bombardeavam as retinas. Apressei-me a mudar de canal para ser bombardeado outra vez. Incontáveis actos de violência desfilaram sem apelo nem agravo. Senti um fogo lento nascer. Por momentos deixei de ser impassível e desliguei a televisão. Mas a violência que vi não falava de corpos mutilados. Falava de mães em pranto e de crianças sem eira nem beira, falava de pobreza e de loucura, falava do insucesso e do desvario, falava da dor de existir sem saber porquê. Falava de histórias do homem comum, e de como nos alimentam o ego de dúvidas e recalcamentos. E enquanto jantamos ou fazemos o que quer que seja está lá aquele ruído de fundo, por intermédio daquela caixinha de surpresas que nos dá o mundo a ver sem ter de o conhecer. Mas não é só aí, é nas ruas, nos prédios,nos cartazes que nos iludem, na boca das pessoas que nos confundem. Todos querem um pedaço de felicidade mas só falamos num choro entrecortado. E eu estou tão farto de não ter mensagens de esperança para dar."

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Peregrino

"O vento embalou até ao chão a ultima folha arrancada da árvore. A hora do dia já não interessava, já era tarde demais para telefonar para quem quer que fosse. Decidi-me ir para casa quando a rua já se tinha tornado insuportável. Mãos enregeladas e lábios cortados pelo frio. O bairro estava silencioso e escuro, a luz que faltava nas ruas era compensada pela lua cheia. O som dos meus passos povoava a rua vazia. Cafés e lojas fechadas, assim como as portadas das janelas nas casas em redor. Por cada prédio que passo imagino como será por dentro. Imagino as pessoas a dormir ou a ver televisão. Àquela hora decerto que todos dormem. Também eu devia. Mas insisto em ser animal noctívago. O que esperava mesmo era ver se encontrava alguém na rua. Um sinal de que não estavam todos a dormir, que alguém estava acordado nesta cidade fantasma."

domingo, 26 de dezembro de 2010

sem sentido?

"A sala tinha o cheiro de tabaco em todo o lado e eu deambulava pela folha em branco. Já me resignei à companhia do cigarro. Ainda não sei o que me trouxe aqui, se a solidão, se a simples saudade de revisitar este estado de poder, na beira da criação ou pelo desalento do nada, do desejo incompleto. Mas cansa-me, ter de colocar estes pequenos pedaços de ideias num plano onde ainda não existem. Tirar mais um pouco de mim, do escasso que resta. E se me dizem que ainda tenho muito para dar, minimizo-o. Nobre modéstia que quase soa a hipocrisia. E que tenho eu para dizer? Entediar-vos com um conjunto de indecisões e questões. Maldita moléstia de não ter vontade própria. O problema é que com este vaguear volto sempre a uma folha vazia. Quem sabe se procuro sempre um começo. Quem sabe se procuro apenas um deserto onde não conheça o meu nome. Nem o meu nem de ninguém."