sábado, 18 de agosto de 2012

pedaço de alma


 Naquele pequeno espaço de tempo enquanto espero por mais um dilúvio, dou comigo no café. Não é o café do costume mas já tinha dado uma espreitadela à meses. E eis que ela cai, entre pequenos intervalos, algo como cinco minutos talvez. Inquietam-se os turistas enquanto os de cá agem como se nada se passasse. Ja me apercebi que é mais do que natural, é até corriqueiro esta forma de encarar as travessuras de S. Pedro. O que já é pedir muito para um homem  vindo de outro país, de outra cultura. De um país onde o tempo passa devagar com o sol pelas costas, de um lugar onde uma cidade resume-se a um punhado de gente.
 Uma cerveja e umas linhas como passatempo, parece-me um bom remédio creio. Pena não o poder fazer a um ritmo diário pois nem todos os dias são merecedores de cerveja.  Do canto do café observo esta torre de babel viva, esta multiplicidade de sons que compõe este pedacinho da cidade. A pouco e pouco vou tornando esta cidade minha e não o inverso, porque de entrega so a tem a qual onde nasci. Mas ja há visões e pessoas familiares. Há espaços comuns como tantas a pontes que atravessam o rio. Todas elas belas, todas elas locais comuns, locais de encontro entre as duas margens. Use-se bem a metáfora.
 Pelos recantos deste bairro, não faltam exemplos da estética napoleónica, icones de grandeza e odisseia clássica desde a avenida da opera até ao museu. Curiosamente por entre todos estas odes ao nosso sentido visual a vida continua e rebate a face do tempo secular. Por entre edificos milenares, os traços de uma civilização incessante e incansavel. São carros à superficie e carruagens sob o solo. São luzes e distracções, são pessoas ou multidões. Mas esta cidade também pára, também dorme. E com ela durmo eu. E após tanto ou tão pouco dito nunca terei dúvidas em afirmar que é fácil ser cidadão do mundo mas quem me tira Lisboa rouba-me um pedaço da alma.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

banal

""já não sei fazer isto" disse-te enquanto acendia as velas da mesa de jantar. Pelo canto do olho pude observar a tua expressão de assentimento forçado. Estavas a acabar de por os pratos na mesa e senti que não podias deixar uma pergunta retórica por fazer. Dão-se aqueles segundos tensos e maquinais, as fracções pesadas da espera em silêncio. Pude ver-te a morder os lábios como se tivesses um segredo por revelar, uma verdade escondida à espreita de sair cá para fora. Soube logo que não irias deixá-la passar. Na realidade, nunca deixas passar nada por ti. "já não sabes fazer o quê?" perguntaste com dolência; como quem larga alguém da mão. Curioso o gesto de colocares o ultimo prato na mesa como se servisses da linguagem do teu corpo como resposta inconsicente. Tive tempo para pensar no que te responder. Mas já estava na ponta da língua. Logo eu o homem das frases feitas. "já não sei fingir que está tudo bem, já não sei abrir as minhas e as tuas portas, já não sei onde ir buscar forças, sei lá...". Mas sabia bem; aliás; sempre soube quando algo esmorece. Mas por dentro só me criticava por nunca saber estar calado."

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

fragrância

"lembrei-me de ti hoje de manhã, senti o mesmo perfume em alguém que passou por mim e não pude deixar de olhar para trás. só mesmo para ver se eras tu. mas não eras. e a cada passo na calçada, choveram imagens atrás de lembranças. o liceu, os desvarios de putos, as tardes na praia, o acampar, os dias e noites nos jardins do bairro, as nossas piadas que ninguém entendia (nem nós às vezes), os sonhos comuns e os medos de infância. eu ainda percorro as mesmas ruas anos depois. tudo diferente e tudo igual. acabo sempre por pensar "já não há putos como nós fomos" e pergunto-me: o que é que nos aconteceu? onde estás tu hoje? talvez escondida na fragrância de um perfume que nunca mais se abriu, perdido na tua mesa de cabeceira."

sábado, 17 de setembro de 2011

já me tinhas dito...

"cuidado com o que pedes, podes ter o azar de acontecer" foi o que a minha mãe me disse há uma data de anos atrás. na altura ri-me e contrapus dizendo de uma forma despreocupada "sabes lá tu! sabes lá alguma coisa..." mas ela sabia. muito mais do que eu. como daquela vez que ela me disse que iria dizer o mesmo aos meus filhos e até os ia castigar da mesma maneira. dessa vez até podia ter acabado o mundo com tanto barafustar e bufar da minha parte. mas ela sabia. e não há outra forma de comprovar senão quando as coisas nos batem directamente no focinho e damos o braço a torçer. mesmo assim pergunto-me porque é que não me avisaste de tantas mais coisas antes da minha vida de adulto? das provações e dos tédios, das responsabilidades e desventuras. de certeza que hoje estaria mais previdente e esclarecido. mas assim não sucedeu. e eu sei, eu sei que é suposto aprender assim, para saber caminhar tive de caír. para saber amar tive que sofrer. e vou saltando de chavão em chavão. mas a verdade é esta: não é necessário ir tão longe para dizer que ela tinha razão. raios partam, eles têm sempre razão."

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

daemon

"transpomo-nos podemos dizê-lo? retiramos a nossa pele em escamas nas noites que passámos em serpente. reptilicos abrimos persistentemente os braços que não temos. talvez num milhão de anos. assim sobram as leis dos mais fortes. assim nascemos de evolução. e custa-nos o olhar veloz de desconfiança. se falamos pela sua cor é o mesmo que cuspir nos nossos corpos. e vivem-se. e respiram-se. não como velados, se é que o queremos como santos. esquecemos vidas passadas em legiões e nem nos podemos valer das nossas vidas. nenhuma delas."


domingo, 28 de agosto de 2011

Luz

"O sol teima em descobrir uma forma de nascer outra vez, sinto a frescura do dia entrar lentamente pela janela na divisão onde estou e começo a sentir-me menos tenso, menos agastado. Curiosamente os ciclos que tanto apregoo tem uma forma única de se revelar. O ecrã enche-se de letras e palavras enquanto tento desocupar alguns atalhos e recantos da minha mente. Assim como o sol entra em minha casa sinto que algo deve ser colocado à luz do dia, à luz da razão, à luz da paz de espírito. Revolvem-se notas antigas, centelhas de imagens e momentos, sons familiares que ainda reverberam na pedra. Podia falar-se da memória de elefante mas as cicatrizes da paixão falam mais alto que fotos perdidas em baús. Revisto os mesmos espaços sozinho e encontro as mesmas canções que escutava. Sente-se o medo impregnado nos mausoléus onde fechei esses pedaços de mim. Afasto os demónios e fantasmas que nunca existiram verdadeiramente, espectros e reflexos criados pela defesa do sacro. Essa câmara onde não me atrevo a entrar. Percebo de onde vem esta calma, é o som das vozes que me acompanham. Talvez seja hora de quebrar esta barreira que ainda não entendo. Ainda não sei se é aí onde estou, mas vejo que há luz. Finalmente."

sábado, 6 de agosto de 2011

monocórdico

"mais, mais e mais. limpo o suor da testa e arregaço as mangas. já sei que o dia vai ser puxado e sinto a vontade de cuspir nas mãos para pegar na enxada. não é esse o meu destino embora já o tenha visto na primeira pessoa. "já não sou assim tão novo para pensar em batatas e trabalhos forçados" pensei no meio da azáfama. é tão difícil acordar. o correio acabado de chegar, a barba por fazer e a loiça para lavar. Contas e contas, meios minutos nas vozes da manhã em surdina na televisão, a água quente que me chama em tons de vapor. inteiro-me das realidades comuns enevoadas. "põe os óculos bom homem!" e sinto que vejo melhor sem ver. "a limpidez da vista não coaduna com a limpidez de espírito". revisito as meias e as calças, acerto o olhar com o gel no cabelo. fecho e deixo o cubículo. "deve ser a milionésima vez que desço as minhas escadas, espera, já ontem me disse o mesmo, espera..." e sinto-me indeciso em descer e viver. e já vou tão rápido rua acima que nem vejo quem me acompanha, buzinam e ultrapassam. fujo aos engarrafamentos e desço a minha colina por ruas velhas. segue-se a marcha forçada e não deixo de pensar "se deus me quer, o homem sonha, a obra nasce? mas que deus é este que me deixa sempre a querer a meio dos sonhos. não admira que sejam nados-mortos. e não o censuro, censuro-me a mim por viver as mesmas obras, dia após dia."