segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Exausto
Drenaram-me do resto que faltava. Deixo para trás casas e espaços vazios. Desapego-me do que ainda me mantinha esta esperança. Pouco mais resta desta carcaça. Olho em desdém para esta segunda pele e afasto-me sem piedade. Um outro nasce hoje sem almejar a nada mais. Resta-me viver, resta-me ocupar o tempo com o melhor que o mundo me pode oferecer. Não volto a olhar para trás, não é hoje que a maldição de Ló me atinge. Limpo e renascido, está na hora de abraçar o destino. Durante a minha exaustão tive tempo para me conhecer. Já não fujo mais ao que sempre soube. Tinhas razão e sempre tentei virar a cara. Às vezes o medo falava mais alto, embriagava-me e aturdia-me. Nós humanos somos assim, inquietos, assustados, à procura de validação. Não será esse o meu trilho. Hoje já não me afasto de mim. Hoje não me afasto por ninguém.
domingo, 7 de abril de 2013
ladainha
Custa-me abrir os olhos e ver os dias a passar como fechá-los e ver os dias a acabar. Custa-me automatizar as minhas palavras e gestos. Ser tudo para uns e nada para outros. Custa-me o arrastar dos dias no meio de todos e de ninguém. Custa-me ser o centro das atenções para mais tarde me eclipsar semana após semana. Custa-me procurar reconhecimento onde nunca o houve. Custa-me escrever antíteses atrás umas das outras e validar todas estas sentenças. Efémeros esforços diários, ladainha constante e irritante.
sábado, 18 de agosto de 2012
pedaço de alma
Naquele pequeno
espaço de tempo enquanto espero por mais um dilúvio, dou comigo no café. Não é
o café do costume mas já tinha dado uma espreitadela à meses. E eis que ela
cai, entre pequenos intervalos, algo como cinco minutos talvez. Inquietam-se os
turistas enquanto os de cá agem como se nada se passasse. Ja me apercebi que é
mais do que natural, é até corriqueiro esta forma de encarar as travessuras de
S. Pedro. O que já é pedir muito para um homem vindo de outro país, de outra cultura. De um país
onde o tempo passa devagar com o sol pelas costas, de um lugar onde uma cidade
resume-se a um punhado de gente.
Uma cerveja e umas
linhas como passatempo, parece-me um bom remédio creio. Pena não o poder fazer
a um ritmo diário pois nem todos os dias são merecedores de cerveja. Do canto do café observo esta torre de babel
viva, esta multiplicidade de sons que compõe este pedacinho da cidade. A pouco
e pouco vou tornando esta cidade minha e não o inverso, porque de entrega so a
tem a qual onde nasci. Mas ja há visões e pessoas familiares. Há espaços comuns
como tantas a pontes que atravessam o rio. Todas elas belas, todas elas locais
comuns, locais de encontro entre as duas margens. Use-se bem a metáfora.
Pelos recantos
deste bairro, não faltam exemplos da estética napoleónica, icones de grandeza e
odisseia clássica desde a avenida da opera até ao museu. Curiosamente por entre
todos estas odes ao nosso sentido visual a vida continua e rebate a face do
tempo secular. Por entre edificos milenares, os traços de uma civilização
incessante e incansavel. São carros à superficie e carruagens sob o solo. São
luzes e distracções, são pessoas ou multidões. Mas esta cidade também pára,
também dorme. E com ela durmo eu. E após tanto ou tão pouco dito nunca terei
dúvidas em afirmar que é fácil ser cidadão do mundo mas quem me tira Lisboa
rouba-me um pedaço da alma.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
banal
""já não sei fazer isto" disse-te enquanto acendia as velas da mesa de jantar. Pelo canto do olho pude observar a tua expressão de assentimento forçado. Estavas a acabar de por os pratos na mesa e senti que não podias deixar uma pergunta retórica por fazer. Dão-se aqueles segundos tensos e maquinais, as fracções pesadas da espera em silêncio. Pude ver-te a morder os lábios como se tivesses um segredo por revelar, uma verdade escondida à espreita de sair cá para fora. Soube logo que não irias deixá-la passar. Na realidade, nunca deixas passar nada por ti. "já não sabes fazer o quê?" perguntaste com dolência; como quem larga alguém da mão. Curioso o gesto de colocares o ultimo prato na mesa como se servisses da linguagem do teu corpo como resposta inconsicente. Tive tempo para pensar no que te responder. Mas já estava na ponta da língua. Logo eu o homem das frases feitas. "já não sei fingir que está tudo bem, já não sei abrir as minhas e as tuas portas, já não sei onde ir buscar forças, sei lá...". Mas sabia bem; aliás; sempre soube quando algo esmorece. Mas por dentro só me criticava por nunca saber estar calado."
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
fragrância
"lembrei-me de ti hoje de manhã, senti o mesmo perfume em alguém que passou por mim e não pude deixar de olhar para trás. só mesmo para ver se eras tu. mas não eras. e a cada passo na calçada, choveram imagens atrás de lembranças. o liceu, os desvarios de putos, as tardes na praia, o acampar, os dias e noites nos jardins do bairro, as nossas piadas que ninguém entendia (nem nós às vezes), os sonhos comuns e os medos de infância. eu ainda percorro as mesmas ruas anos depois. tudo diferente e tudo igual. acabo sempre por pensar "já não há putos como nós fomos" e pergunto-me: o que é que nos aconteceu? onde estás tu hoje? talvez escondida na fragrância de um perfume que nunca mais se abriu, perdido na tua mesa de cabeceira."
sábado, 17 de setembro de 2011
já me tinhas dito...
"cuidado com o que pedes, podes ter o azar de acontecer" foi o que a minha mãe me disse há uma data de anos atrás. na altura ri-me e contrapus dizendo de uma forma despreocupada "sabes lá tu! sabes lá alguma coisa..." mas ela sabia. muito mais do que eu. como daquela vez que ela me disse que iria dizer o mesmo aos meus filhos e até os ia castigar da mesma maneira. dessa vez até podia ter acabado o mundo com tanto barafustar e bufar da minha parte. mas ela sabia. e não há outra forma de comprovar senão quando as coisas nos batem directamente no focinho e damos o braço a torçer. mesmo assim pergunto-me porque é que não me avisaste de tantas mais coisas antes da minha vida de adulto? das provações e dos tédios, das responsabilidades e desventuras. de certeza que hoje estaria mais previdente e esclarecido. mas assim não sucedeu. e eu sei, eu sei que é suposto aprender assim, para saber caminhar tive de caír. para saber amar tive que sofrer. e vou saltando de chavão em chavão. mas a verdade é esta: não é necessário ir tão longe para dizer que ela tinha razão. raios partam, eles têm sempre razão."
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
daemon
"transpomo-nos podemos dizê-lo? retiramos a nossa pele em escamas nas noites que passámos em serpente. reptilicos abrimos persistentemente os braços que não temos. talvez num milhão de anos. assim sobram as leis dos mais fortes. assim nascemos de evolução. e custa-nos o olhar veloz de desconfiança. se falamos pela sua cor é o mesmo que cuspir nos nossos corpos. e vivem-se. e respiram-se. não como velados, se é que o queremos como santos. esquecemos vidas passadas em legiões e nem nos podemos valer das nossas vidas. nenhuma delas."
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