quinta-feira, 20 de maio de 2021

Verbalizar

 

Pelos caminhos tortuosos da fala libertam-se desejos de concordância. Pela fala e todo o seu acumulado de sons ancianos exprime-se imagem e ideia, procura-se o interpretar das emoções, afia-se o silex da lógica. Pelo som do meu choro, alimento o medo no homem mas pelo som do meu riso convido-nos à cumplicidade propria do sentimento ebriático e fraternal de quem provém da mesma génese.

Pela voz comanda-se acções e contracções, promove-se o estandarte e a cor. Uma voz pelo destino de tantos, uma ideia presa à linguagem que a molda e transforma. O metal macio com que se forma alianças e se destrói impérios. A vontade aliada ao som, como as trompas de jericó aliadas à fé de quem as empunha. 

 O que queremos uns dos outros valida-se e mente-se em canção aberta, diálogos e monólogos tão velhos como o tempo que os constroem. Procura-se veracidade no conto popular, na repetição das gerações dentre o legado que a torre de babel nos deixou e hermes fez acreditar. É isto que chamamos lingua, e os seus derivados, o amparo do homem ou a volúpia do seu ego.


segunda-feira, 26 de abril de 2021

carpir

 às vezes pedem-me para ter fé. ou para sorrir e acenar mas parece-me sempre despropositado neste cortejo funebre dos nossos valores. obséquios de porcelana, reverências e vénias a reis depostos. frageis lamentos, o ténue gemido da humanidade sobre o chicote.

E sinto-me, vergo-me e contorço os cantos da boca em visível dor. Mas os milhões de olhos a minha volta clamam aos céus a sua existência e as vozes que choram servem o silêncio dos coniventes. 

as vezes pedem-me paciência e para ter compaixão, mas a turba é a maralha convulsa que se auto consome sem complacência, a mesma que se revolve em histerias colectivas. 

as vezes pedem-me para ser humano, mas não consigo deixar de o ser pois cogito o seu propósito. 


domingo, 4 de abril de 2021

Abnegação

 

Viro-lhes a cara, mas não em desagrado nem repugnância. Foi em simples desinteresse. Antes fosse em nojo. Era sinal de vida. Mas não. Foi como aquelas memórias de que não rezam história, daqueles automatismos banais que só vivem de repetição. Ou melhor ainda, daqueles apertos de mão flácidos que são apenas protocolo.

De facto é isso mesmo, protocolo. Um conjunto de regras que não promove paixões, não alimenta o espírito nem acalenta a alma. É o puro desinteresse da efemeridade dos nossos dias. 

Pois se perdeu o lustre, metemos de parte. Não é novidade, deitamos fora. Deixa de ter utilidade emocional e como tudo o que consumimos hoje em dia é uma panóplia de nadas. Um carpe diem de ar quente. 

- Mas ao quê? - perguntas tu. - Às coisas - digo eu - Às coisas todas.

domingo, 19 de outubro de 2014

dispersos antes de um exame


Resigno-me sempre coma a mesma frase "É sempre na ultima da hora, não fosse eu português!" Combato estas ideias de derrota, hoje, derradeiro dia de preparação, de emancipação pessoal, de sonho de criança em ser adulto. Se hoje me ponho à prova outros mo farão amanha. Não é nada a que não me tenha habituado durante a minha vida. Um chorrilho de provas é o que isto é. Passo a expressão ao "chorrilho". Espero que os meus auditores não me vejam a vilipendiar o Portugues. Para dizer a verdade faço um disfemismo com as últimas frases. Mas será que a vida não é uma forma violenta de nos testar? Vejamos pois o que nos resta do teste em si: a ansiedade, a antecipação, o rito de passagem, o desespero ou impaciência da sua resolução. Fases pelas quais terei (teremos) que passar. Custa-me o facto de não saber se me imponho mais do que mereço ou se mereço mais do que me imponho. Mas custa-me ainda mais saber que há alguém que por intermédio do de digo e escrevo o irá avaliar. Será mesmo que foi a vida ou eu próprio a colocar-me ao teste? Qualquer dos dois que tenha sido vou saltando esta barreira que tenho pela frente. E deixem-me dizer-vos que da "escola da vida" já me deram famas de mestrado.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Exausto


Drenaram-me do resto que faltava. Deixo para trás casas e espaços vazios. Desapego-me do que ainda me mantinha esta esperança. Pouco mais resta desta carcaça. Olho em desdém para esta segunda pele e afasto-me sem piedade. Um outro nasce hoje sem almejar a nada mais. Resta-me viver, resta-me ocupar o tempo com o melhor que o mundo me pode oferecer. Não volto a olhar para trás, não é hoje que a maldição de Ló me atinge. Limpo e renascido, está na hora de abraçar o destino. Durante a minha exaustão tive tempo para me conhecer. Já não fujo mais ao que sempre soube. Tinhas razão e sempre tentei virar a cara. Às vezes o medo falava mais alto, embriagava-me e aturdia-me. Nós humanos somos assim, inquietos, assustados, à procura de validação. Não será esse o meu trilho. Hoje já não me afasto de mim. Hoje não me afasto por ninguém.



domingo, 7 de abril de 2013

ladainha

Custa-me abrir os olhos e ver os dias a passar como fechá-los e ver os dias a acabar. Custa-me automatizar as minhas palavras e gestos. Ser tudo para uns e nada para outros. Custa-me o arrastar dos dias no meio de todos e de ninguém. Custa-me ser o centro das atenções para mais tarde me eclipsar semana após semana. Custa-me procurar reconhecimento onde nunca o houve. Custa-me escrever antíteses atrás umas das outras e validar todas estas sentenças. Efémeros esforços diários, ladainha constante e irritante.

sábado, 18 de agosto de 2012

pedaço de alma


 Naquele pequeno espaço de tempo enquanto espero por mais um dilúvio, dou comigo no café. Não é o café do costume mas já tinha dado uma espreitadela à meses. E eis que ela cai, entre pequenos intervalos, algo como cinco minutos talvez. Inquietam-se os turistas enquanto os de cá agem como se nada se passasse. Ja me apercebi que é mais do que natural, é até corriqueiro esta forma de encarar as travessuras de S. Pedro. O que já é pedir muito para um homem  vindo de outro país, de outra cultura. De um país onde o tempo passa devagar com o sol pelas costas, de um lugar onde uma cidade resume-se a um punhado de gente.
 Uma cerveja e umas linhas como passatempo, parece-me um bom remédio creio. Pena não o poder fazer a um ritmo diário pois nem todos os dias são merecedores de cerveja.  Do canto do café observo esta torre de babel viva, esta multiplicidade de sons que compõe este pedacinho da cidade. A pouco e pouco vou tornando esta cidade minha e não o inverso, porque de entrega so a tem a qual onde nasci. Mas ja há visões e pessoas familiares. Há espaços comuns como tantas a pontes que atravessam o rio. Todas elas belas, todas elas locais comuns, locais de encontro entre as duas margens. Use-se bem a metáfora.
 Pelos recantos deste bairro, não faltam exemplos da estética napoleónica, icones de grandeza e odisseia clássica desde a avenida da opera até ao museu. Curiosamente por entre todos estas odes ao nosso sentido visual a vida continua e rebate a face do tempo secular. Por entre edificos milenares, os traços de uma civilização incessante e incansavel. São carros à superficie e carruagens sob o solo. São luzes e distracções, são pessoas ou multidões. Mas esta cidade também pára, também dorme. E com ela durmo eu. E após tanto ou tão pouco dito nunca terei dúvidas em afirmar que é fácil ser cidadão do mundo mas quem me tira Lisboa rouba-me um pedaço da alma.