terça-feira, 29 de junho de 2021

Ecos


Um cânone serve como pedaço de exaltação ou como a punição do sofredor. Um ruído que nos deixa mudos é o mesmo que nos preenche a alma. É composto de tudo o que não é tangivel mas tambem se acompanha da ideia ou imagem, junta-se ao fisico pelo bálsamo do idealista, a âncora do existencial, a exultação do crente. Irmanados na vertente humana.

Um transe hipnótico que perdura desde a criação da linguagem, a música da musa deixa enfeitiçado o mais comum pela beleza da sua pureza. Sem necessidade de razão desafia a lógica do raciocinio e expande a fronteira do mundo conhecido. 

Os ecos do primordial são o verdadeiro temor do trovão. E todo ele na sua magnitude é um verbo sem palavra, uma emoção banhada no abstracto. O vibrar da semente da existencia é o protótipo da linguagem perfeita.


quinta-feira, 20 de maio de 2021

Verbalizar

 

Pelos caminhos tortuosos da fala libertam-se desejos de concordância. Pela fala e todo o seu acumulado de sons ancianos exprime-se imagem e ideia, procura-se o interpretar das emoções, afia-se o silex da lógica. Pelo som do meu choro, alimento o medo no homem mas pelo som do meu riso convido-nos à cumplicidade propria do sentimento ebriático e fraternal de quem provém da mesma génese.

Pela voz comanda-se acções e contracções, promove-se o estandarte e a cor. Uma voz pelo destino de tantos, uma ideia presa à linguagem que a molda e transforma. O metal macio com que se forma alianças e se destrói impérios. A vontade aliada ao som, como as trompas de jericó aliadas à fé de quem as empunha. 

 O que queremos uns dos outros valida-se e mente-se em canção aberta, diálogos e monólogos tão velhos como o tempo que os constroem. Procura-se veracidade no conto popular, na repetição das gerações dentre o legado que a torre de babel nos deixou e hermes fez acreditar. É isto que chamamos lingua, e os seus derivados, o amparo do homem ou a volúpia do seu ego.


segunda-feira, 26 de abril de 2021

carpir

 às vezes pedem-me para ter fé. ou para sorrir e acenar mas parece-me sempre despropositado neste cortejo funebre dos nossos valores. obséquios de porcelana, reverências e vénias a reis depostos. frageis lamentos, o ténue gemido da humanidade sobre o chicote.

E sinto-me, vergo-me e contorço os cantos da boca em visível dor. Mas os milhões de olhos a minha volta clamam aos céus a sua existência e as vozes que choram servem o silêncio dos coniventes. 

as vezes pedem-me paciência e para ter compaixão, mas a turba é a maralha convulsa que se auto consome sem complacência, a mesma que se revolve em histerias colectivas. 

as vezes pedem-me para ser humano, mas não consigo deixar de o ser pois cogito o seu propósito. 


domingo, 4 de abril de 2021

Abnegação

 

Viro-lhes a cara, mas não em desagrado nem repugnância. Foi em simples desinteresse. Antes fosse em nojo. Era sinal de vida. Mas não. Foi como aquelas memórias de que não rezam história, daqueles automatismos banais que só vivem de repetição. Ou melhor ainda, daqueles apertos de mão flácidos que são apenas protocolo.

De facto é isso mesmo, protocolo. Um conjunto de regras que não promove paixões, não alimenta o espírito nem acalenta a alma. É o puro desinteresse da efemeridade dos nossos dias. 

Pois se perdeu o lustre, metemos de parte. Não é novidade, deitamos fora. Deixa de ter utilidade emocional e como tudo o que consumimos hoje em dia é uma panóplia de nadas. Um carpe diem de ar quente. 

- Mas ao quê? - perguntas tu. - Às coisas - digo eu - Às coisas todas.

domingo, 19 de outubro de 2014

dispersos antes de um exame


Resigno-me sempre coma a mesma frase "É sempre na ultima da hora, não fosse eu português!" Combato estas ideias de derrota, hoje, derradeiro dia de preparação, de emancipação pessoal, de sonho de criança em ser adulto. Se hoje me ponho à prova outros mo farão amanha. Não é nada a que não me tenha habituado durante a minha vida. Um chorrilho de provas é o que isto é. Passo a expressão ao "chorrilho". Espero que os meus auditores não me vejam a vilipendiar o Portugues. Para dizer a verdade faço um disfemismo com as últimas frases. Mas será que a vida não é uma forma violenta de nos testar? Vejamos pois o que nos resta do teste em si: a ansiedade, a antecipação, o rito de passagem, o desespero ou impaciência da sua resolução. Fases pelas quais terei (teremos) que passar. Custa-me o facto de não saber se me imponho mais do que mereço ou se mereço mais do que me imponho. Mas custa-me ainda mais saber que há alguém que por intermédio do de digo e escrevo o irá avaliar. Será mesmo que foi a vida ou eu próprio a colocar-me ao teste? Qualquer dos dois que tenha sido vou saltando esta barreira que tenho pela frente. E deixem-me dizer-vos que da "escola da vida" já me deram famas de mestrado.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Exausto


Drenaram-me do resto que faltava. Deixo para trás casas e espaços vazios. Desapego-me do que ainda me mantinha esta esperança. Pouco mais resta desta carcaça. Olho em desdém para esta segunda pele e afasto-me sem piedade. Um outro nasce hoje sem almejar a nada mais. Resta-me viver, resta-me ocupar o tempo com o melhor que o mundo me pode oferecer. Não volto a olhar para trás, não é hoje que a maldição de Ló me atinge. Limpo e renascido, está na hora de abraçar o destino. Durante a minha exaustão tive tempo para me conhecer. Já não fujo mais ao que sempre soube. Tinhas razão e sempre tentei virar a cara. Às vezes o medo falava mais alto, embriagava-me e aturdia-me. Nós humanos somos assim, inquietos, assustados, à procura de validação. Não será esse o meu trilho. Hoje já não me afasto de mim. Hoje não me afasto por ninguém.



domingo, 7 de abril de 2013

ladainha

Custa-me abrir os olhos e ver os dias a passar como fechá-los e ver os dias a acabar. Custa-me automatizar as minhas palavras e gestos. Ser tudo para uns e nada para outros. Custa-me o arrastar dos dias no meio de todos e de ninguém. Custa-me ser o centro das atenções para mais tarde me eclipsar semana após semana. Custa-me procurar reconhecimento onde nunca o houve. Custa-me escrever antíteses atrás umas das outras e validar todas estas sentenças. Efémeros esforços diários, ladainha constante e irritante.